domingo, 16 de agosto de 2015

'ESSE AMANHECER, MAIS NOITE QUE A NOITE'

Drummond era um sábio.

Com esse trecho final do poema Sentimento do Mundo, vislumbro o momento político e suas repercussões.

O grito de guerra, o desejo de mudança, o oportunismo sem escrúpulos... Tudo fundido na mesma receita, na qual a boa e a má-fé se revelam sem se chocar, posto que a segunda está "bem" disfarçada.

O que esperar do futuro? É aceitável que o medo impeça a mudança?

Sinceramente, meu desejo é de que tudo seja alterado. Não apenas nomes e partidos, mas tudo mesmo, pois toda a massa se estragou.

É impossível continuar com a mesma desfaçatez, bem como será loucura revolucionar apenas na superfície.

Em outro poema, o mineiro de Itabira pergunta se de fato o Brasil e os brasileiros existem... Uma indagação feita na primeira metade do século passado, a demonstrar que há décadas (ou seriam séculos?) vigora a impressão de que vivemos num país de ficção, de costas para a lógica e o bom senso.

Tornar-se um povo de verdade, em um país real, requer muito mais do que o óbvio. Exige ir além das paixões e preconceitos, pensar sem amarras ideológicas, o que implica estar disposto a mudar radicalmente e atingir a estrutura.

É preciso distinguir as vozes que gritam pela mudança real daquelas que desejam tão somente restabelecer privilégios indevidos. Na selva das ruas, existem as hienas, vorazes e famintas, querendo refestelar-se com os despojos da batalha.

Que as vozes bem intencionadas não sirvam apenas para aumentar o banquete!

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

FORA DA ZONA DE CONFORTO

Estou há uma semana em Salvador, sozinho, na Pituba, a 800 metros do mar que vislumbro da varanda do apartamento.

Estar nessa bela cidade, onde permanecerei nos próximos quatro meses, é um privilégio, mas isso não torna menos dolorosa a distância. A tristeza muitas vezes me visita, castigando a quem se acostumou a estar perto dos seus, a ponto até perder a noção de como isso é fundamental em nossa vida.

Acostumei-me à zona de conforto. Aos 41 anos, percebo que pouquíssimas vezes me afastei dela, e por isso hoje sofro mais. Sinto-me como em um exílio, mas estou me habituando.

Há coisas boas.

Circulo por Salvador e descubro a cidade na qual estive tantas vezes, mas sem conhecê-la como agora. Com todas as suas belezas e disparidades. Com a visão belíssima do Solar do Unhão e a feiura da Barros Reis cercada por favelas. Do prazer da corrida da Pituba até o final da praia de Amaralina ao assédio de viciados nas ruas e pontos de ônibus.

Cores de uma cidade linda. Dores de uma cidade grande.

Tive uma experiência fantástica no domingo, em meu terceiro dia aqui. Já sozinho, após uma despedida dolorosa, fui à Igreja de São Francisco, com todo o seu impressionante exagero barroco, e me deparei com uma apresentação da Orquestra Sinfônica da Bahia. Incrível.

Nesse clima, acabei ressuscitando o poeta e brotaram esses versos:

a tristeza em que eu ando
vem de não saber
de te ver não sei quando
é estar só pela metade
e o vazio que sinto
dói do tamanho da saudade